quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O TRAJE de ALIMENTOS

Meus amigos,
Quero muito de agradecer aos que visitam este blog, mas como tenho recebido de alguns amigos receitas de comidas, gostaria de explicar que o mesmo não tem essa finalidade. Na verdade, ele foi criado para divulgar curiosidades que envolvem o ato de cozinhar, como no capítulo escrito por Câmara Cascudo sobre o “Folclore da alimentação” (855-874; 2004).
O autor começa assim:
“Folclore da alimentação deve ser tão variado e complexo como a própria história. (...)”
E, na sequência, Cascudo passa a discorrer sobre o tema trazendo inúmeros exemplos. Em um desses momentos, cita Assis Iglesias (1958) quando este ouve o cego Raimundo Leão de Sales que entoa a cantiga original “o traje de alimentos”, aprendida com um cearense também cego.
Prepare o seu cearês e veja a teia de significados que tem nos versos:   

O traje de alimentos

Mandei fazê um liforme,
Bem feito com perfeição,
Mó de bota na cidade,
No dia de enleição,
E o qual admiro
A toda população.

O chapéu de arroz-doce,
Forrado de tapioca,
As fitas de alfinim
E as fivelas de paçoca
E a camisa de nata
E os botões de pipoca.

A ceroula de soro
E a calça de coalhada,
O cinturão de mantêga
E o broche de carne assada,
O sapato de pirão
E a biqueira de cocada.

As meis de mingau
E os véus de gergelim,
E as aspas de pão-de-ló
E o anelão de bulim,
As fitas de gordura
E as luvas de toicim.

O colete de banana,
O fraque de carne frita,
O lenço de marmê
E o lecre de cambica,
O colarim de bolacha
E a gravata de tripa.

O relógio de queijo
A chave de rapadura,
A caçuleta de doce
E o trancelim de gordura.
Quem tem um liforme deste
Pode-se julgar na fartura.

Para alimentar-se mais sobre o assunto leia: Cascudo, Luís da Câmara. História da Alimentação no Brasil. 3. Ed. São Paulo : Global, 2004.

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